As paradas estão cheias de músicas antigas, e os artistas novos deveriam se preocupar
O domínio do catálogo não é só nostalgia: o streaming e as playlists premiam o que já conhecemos, e a indústria não pode tratar a descoberta de artistas novos como algo opcional.
Foto: Sulamith Sallmann / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
O maior concorrente da indústria da música é uma gravadora rival, uma tendência do TikTok ou um modelo de inteligência artificial generativa? Cada vez mais, parece ser algo bem mais banal: o catálogo do Fleetwood Mac e os hábitos de quem só quer ouvir o que já ama.
Os números são diretos. Segundo a BBC, que cita dados da Luminate, os streams de músicas atuais (lançadas há menos de 18 meses) ficaram muito atrás dos de músicas mais antigas, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, no primeiro semestre de 2026, com cerca de 60% das músicas tocadas lançadas há cinco anos ou mais. Dezoito das 20 músicas mais vendidas do ano saíram há 12 meses ou antes. “Lush Life”, de Zara Larsson (2015), é o oitavo maior sucesso do ano, “Billie Jean”, de Michael Jackson, está na 22ª posição e “Dreams”, do Fleetwood Mac, na 30ª. No R&B e no hip hop, os dois gêneros mais tocados, cerca de 60% dos streams são de sucessos de catálogo.
Isso não é nostalgia, é design
A leitura fácil é que os ouvintes são sentimentais. A própria Luminate observa que “2026 is the new 2016” virou um grito de guerra dominante nas redes sociais, então a nostalgia é real. Mas só ela não explica por que o padrão é tão consistente entre os gêneros. Acreditamos que a melhor explicação é estrutural: um serviço em que praticamente qualquer música gravada está a um toque de distância premia a escolha segura, e a escolha segura é a música que você já conhece.
Depois vêm os sistemas de recomendação. Como diz à BBC o DJ e curador Tim Garcia, eles se baseiam no comportamento de escuta e nos dados de todo mundo, então você provavelmente receberá uma recomendação muito próxima do que já ouve. Dan Mackta, da Qobuz, afirma que a tecnologia “nunca vai querer te surpreender”. Seja qual for a sua opinião sobre a fonte (a Qobuz vende uma alternativa com curadoria humana), a lógica se sustenta: um algoritmo otimizado para engajamento é uma máquina de familiaridade. Ele não odeia música nova. Só não tem motivo para arriscar com ela.
Quem ganha continua ganhando, até os novos
Mesmo os sucessos atuais fazem parte da mesma dinâmica. A BBC aponta que “Rein Me In”, de Sam Fender e Olivia Dean, passou um recorde de 23 semanas não consecutivas em primeiro lugar no Reino Unido, e que “Choosin' Texas”, de Ella Langley, se tornou o número um mais duradouro da história das paradas dos EUA. Isso é celebrado como triunfo. Nós lemos como sintoma: quando um punhado de músicas absorve a atenção por meses, o espaço que sobra para todos os outros encolhe. A Autoridade de Concorrência e Mercados do Reino Unido, ainda segundo a BBC, diz que quase dois terços dos streams são de músicas gravadas por apenas 0,4% dos artistas do topo.
Para quem está chegando, é um funil brutal. E viralizar não resolve. Alguns músicos dizem que é difícil dar sequência a um sucesso, e o TikTok foi feito para criar momentos virais em torno de uma única música, não carreiras. J Erving, fundador da Human Re Sources, empresa de distribuição da Raye, resumiu bem o problema em uma entrevista à Billboard citada pela BBC: as pessoas precisam se importar com você além da música. Uma economia do streaming que premia a escuta passiva é hostil justamente a esse tipo de conexão.
A descoberta não pode ficar a cargo do mercado
Aqui tomamos partido: plataformas e gravadoras que tratam a descoberta como um extra simpático estão comendo as próprias sementes. Oliver Schusser, da Apple Music, fez essa observação ao notar que os artistas dos últimos shows do intervalo do Super Bowl começaram todos em algum lugar antes de chegar ao maior palco. Se o fluxo desses “algum lugar” secar, desconfiamos que não haverá, daqui a algumas décadas, um novo catálogo que valha a pena monetizar.
Há experimentos animadores, embora não os exageremos. A Sofar Sounds promove um “Human Discovery Movement” com recomendações em áudio de formadores de opinião, e um rapper da zona leste de Londres, J Casa, defende que a apresentação ao vivo cria uma conexão duradoura com um artista novo. São respostas pequenas, em escala humana, para um problema enorme. O mais difícil é o ruído gerado por IA: o Spotify diz ter removido 75 milhões de “faixas de spam”, e o artista independente Chiminyo contou à BBC que suspeita que uma popular playlist de piano jazz relaxante esteja cheia de artistas não verificados e quase idênticos. A Deezer, para ser justo, afirma que a IA responde por apenas 0,5% de seus streams, então a ameaça real, por ora, parece ser a superlotação, não a substituição.
Nosso veredicto
Não leia as paradas como prova de que as pessoas deixaram de se importar com música nova. Leia como prova de que as configurações padrão do streaming favorecem o familiar. As plataformas deveriam criar descoberta que arrisque de propósito uma surpresa, as gravadoras deveriam investir em artistas além do single viral, e os ouvintes, sim, você, podem fazer um pouco do trabalho: seguir um curador humano, ir a um show pequeno, apertar o play em um artista que você nunca ouviu. O catálogo sempre estará lá. O próximo catálogo não vai se construir sozinho.
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