A guinada de Jack Harlow para o R&B em Monica é um risco que vale a pena, se as músicas se sustentarem
Trocar o rap pelo neo-soul parece um jeito esperto de sair da esteira dos singles de sucesso, mas Monica mostra como é difícil fazer uma guinada durar além da novidade.
Imagem gerada por IA
Dá para continuar sendo uma estrela com base em alguns grandes singles? Jack Harlow estourou com "What's Poppin'" em 2020 e, com Monica, parece ter decidido que quer ser outra coisa. Essa é a parte interessante. Se o disco é realmente bom é outra questão, e mais confusa.
O que aconteceu, em resumo
Monica chegou em 13 de março, aniversário de 28 anos de Harlow, três anos depois de Jackman. Segundo a Melodic Magazine, é o quarto álbum de estúdio dele, com nove músicas sobre amor e relacionamentos. O Shatter the Standards relata que ele descartou quatro singles feitos entre os dois álbuns e que não há rap em lugar nenhum do disco.
A guinada é o instinto certo
Na nossa visão, viver de singles de sucesso é uma esteira. Você precisa de um hit toda vez e, quando ele não vem, pouca coisa sustenta o catálogo. Os críticos não concordam em muita coisa sobre Monica, mas há um motivo relatado por trás da mudança. Segundo o In Between Drafts, Harlow disse que descartou um projeto de dois anos porque a arrogância, pilar do rap, tinha deixado de parecer honesta para ele. Achamos um motivo crível para mudar de rumo, e melhor do que correr atrás de tendência.
A execução também mostra ambição. A mesma resenha diz que ele gravou no Electric Lady Studios e chamou Robert Glasper. Segundo o The Needle Drop, o projeto foi anunciado com uma divulgação curta e sem single de aquecimento. É uma escolha ousada para um artista que fez nome com singles. Abrir mão do gancho óbvio é o tipo de movimento que, para nós, sinaliza uma tentativa de ser levado a sério como artista de álbuns.
Mas mudar de imagem não é ter repertório
Aqui a crítica se divide bastante, e a divisão é instrutiva. A Variety diz que ele melhorou seu som com um clima caloroso e soul. A Melodic Magazine chama a mudança de frutífera. Do outro lado, o The Needle Drop acha o projeto chato, diz que Harlow não sustenta a afinação em "My Winter" e destaca "All of My Friends" como a única música que funciona como está. O Shatter the Standards é mais equilibrado: produção forte, algumas músicas afiadas ("My Winter", "Lonesome") e outras que "precisavam de mais uma ideia".
Nossa leitura é que o ponto fraco é justamente o que tornava a guinada tentadora. O In Between Drafts descreve a voz dele como funcionando menos como instrumento principal e mais como mais uma textura no arranjo, e aí está o nó da questão. Pode ser lido como contenção confiante, e serve para um disco de clima. Mas é um problema para um movimento de carreira feito para durar mais que um ciclo de notícias, porque discos de clima vivem ou morrem pela voz e pela melodia. Os elogios dessas resenhas tendem a recair sobre o entorno, como o órgão de Cory Henry em "My Winter", mais do que sobre o cantor. Achamos um desequilíbrio revelador.
Há também um debate sobre autenticidade de que nenhuma guinada assim escapa. O The Needle Drop chama a tentativa de ingênua, e o In Between Drafts descreve o álbum como neo-soul usado como mudança de imagem pessoal. A crítica de que ele pega emprestado um som sem a profundidade por trás vai segui-lo. Diríamos que é em parte justa e em parte injusta: pegar emprestado é como começa a maioria das mudanças de gênero, e o que importa é se o próximo disco mostra que ele aprendeu algo.
O que pensar disso
A guinada é esperta; o álbum é, na melhor das hipóteses, um rascunho promissor. A opinião está dividida o bastante para que a gente não confie em nenhum veredito isolado, inclusive o nosso, e a voz fina parece um teto real. Ainda assim, preferimos ver um artista errar tentando algo honesto a reciclar uma fórmula para mais um hit de playlist.
Nossa recomendação: ouça "My Winter", "Lonesome" e "All of My Friends" antes de decidir, já que são as músicas a que os críticos sempre voltam, para o bem ou para o mal. Quanto a Harlow, o teste não é Monica. É o próximo disco. Se ele apurar a composição e construir em torno de uma presença vocal mais forte, isso vai parecer um ponto de virada. Se voltar a correr atrás de um hit, vai parecer só uma troca de fantasia.
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