Jay-Z escolheu Jay-Z, e o palco do intervalo agora é um circuito fechado
Estrelar o Super Bowl LXI depois de anos curando o show é o fim natural da cartilha do magnata, mas deixa NFL, Roc Nation e artista dentro de um mesmo círculo.
Imagem gerada por IA
O que acontece quando a pessoa que decide quem sobe no maior palco da música americana decide que deve ser ela mesma? Pelo visto, você recebe um comunicado de imprensa com a palavra "jornada".
Os fatos são simples. A Rolling Stone informa que Jay-Z será a atração principal do show do intervalo do Super Bowl LXI, em 14 de fevereiro de 2027, no SoFi Stadium, em Los Angeles. Ele chamou de "um sonho realizado". A notícia saiu uma semana depois de a Puck revelar que ele mesmo havia ficado com a vaga. A Roc Nation coproduz o show com a NFL desde 2019 e, segundo a Forbes, o acordo agora vai até 2029.
A lógica é perfeita, e esse é o problema
Comecemos pelo que é justo. O comissário Roger Goodell disse que, quando a liga concordou pela primeira vez em deixar a Roc Nation produzir o show, ele tinha um único pedido: que Jay-Z subisse ao palco um dia. Não foi um golpe. Foi uma promessa cumprida, e o momento combina. Jay-Z comemora os 30 anos de Reasonable Doubt, e sua turnê de aniversário acabou de terminar. Como história, é bem amarrada.
Para nós, é justamente essa arrumação que deveria nos incomodar. Uma atração principal comum é escolhida por alguém que precisa responder pela escolha. Aqui, se a apuração da Puck estiver certa, quem escolhe, o produtor, o beneficiado e o estrategista de música ao vivo da própria liga são o mesmo homem. O Awful Announcing repassa o relato da Puck de que ele se escolheu depois de semanas de angústia, e de que fontes o descreveram como uma opção "mais atraente" do que Miley Cyrus ou Justin Bieber. É uma comparação lisonjeira, e ninguém de fora do círculo consegue conferi-la.
O histórico rende confiança, não imunidade
A defesa é forte. Sob a Roc Nation, o show teve Shakira, Jennifer Lopez, The Weeknd, Rihanna, Usher, Kendrick Lamar e Bad Bunny. O de Bad Bunny atraiu 128,2 milhões de espectadores nos EUA, segundo o Awful Announcing. Como argumenta o Digital Music News, a NFL tem todos os motivos para confiar no instinto dessa empresa.
Mas um bom histórico é motivo para confiar no gosto de alguém. Não é motivo para pular a pergunta sobre o conflito de interesses. Segundo o Digital Music News, críticos na internet notaram que Jay-Z não lança música nova há algum tempo e gostariam de um artista mais atual. Achamos que essa reclamação está só meio certa. Artistas legados podem fazer ótimos shows de intervalo, e um catálogo como o dele foi feito para um estádio. O problema real não é a idade nem a discografia. É que o processo foi invisível, e a única pessoa que poderia ter dito não era a que saía ganhando.
O que o palco ganha e o que perde em silêncio
O show do intervalo era um lugar em que a liga tomava credibilidade emprestada dos artistas. Nesse arranjo, a credibilidade corre no sentido oposto: o artista toma emprestada a maior plataforma da liga para fechar seu próprio ciclo de aniversário, com a marca da Apple Music por cima. Tudo fica direitinho, verticalmente integrado. Se isso é bom para o gênero, é outra questão. O hip hop leva seu estadista veterano ao palco, mas também perde uma vaga que poderia lançar alguém mais novo.
Há também um bônus óbvio: a lista de convidados. O Digital Music News especula que Beyoncé encabeça a lista, já que ela o acompanhou na turnê. O Yahoo Entertainment observa que, por ora, não está claro se ela vai aparecer. É especulação, não fato, mas apostamos que o show foi pensado para ser lembrado pelas participações especiais.
Nosso veredito
Assista e julgue sem auréola. Se Jay-Z entregar um show à altura do padrão que Bad Bunny estabeleceu, a autoescalação vai parecer uma nota de rodapé. Se parecer uma volta olímpica, a crítica vai pegar, e com razão. A NFL e a Roc Nation não deveriam esperar por esse resultado para corrigir o processo. Depois de 2029, gostaríamos de ver uma voz de fora na sala, alguém capaz de dizer "você não, este ano não". Um curador a quem nunca se pode dizer não não está curando. Está só se colocando na agenda.
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