Juan Atkins ajudou a criar o techno, e a indústria lhe deve mais que homenagens
A morte de Atkins, aos 64 anos, encerra o capítulo fundador do techno de Detroit. Festivais e selos que lucram com o gênero deveriam pagar seus criadores com mais que obituários.
Imagem gerada por IA
Quantos headliners dos festivais de techno deste ano se apoiam em um som que um adolescente de Detroit com um Korg MS-10 ajudou a pôr em movimento? Essa é a pergunta incômoda por trás da onda de obituários de Juan Atkins, e duvidamos que só as homenagens a respondam.
Atkins morreu em 31 de outubro, aos 64 anos. Ele estava escalado para tocar naquela noite no Yu Yu Club, na Cidade do México, e a empresa de agenciamento Green Smith Artists confirmou a morte, segundo a Pitchfork. A DJ Mag diz que ele teria sofrido um infarto. Ele cofundou o Cybotron, foi um dos Belleville Three, ao lado de Derrick May e Kevin Saunderson, e também trabalhou como Model 500.
Ele trabalhou até o fim, e isso diz muito
A Pitchfork observa que, nos últimos dois anos, Atkins tocou em todo lugar, de Nova York a Berlim, nos palcos principais do Movement, do Dekmantel e do Houghton. É um detalhe triunfal e também revelador. Um homem que insistiu em chamar sua música de techno, e que lhe deu uma gramática futurista, ainda estava na estrada e em planilhas de contratação quando morreu.
Não estamos dizendo que Atkins era pobre ou foi negligenciado; não temos informações sobre suas finanças e não vamos especular. A questão é estrutural. Achamos que a economia da música de pista paga muito melhor quem está no palco hoje à noite do que quem escreveu o projeto décadas atrás. Os fundadores são celebrados como "legado", palavra que na prática muitas vezes significa um bom horário e uma apresentação de slides.
A lacuna de crédito é sobre nomes, não só sobre dinheiro
Atkins fazia questão da palavra. Em 2005, ele disse à Pitchfork que "sempre chamou a música que estava fazendo de techno", mesmo quando DJs de Chicago a rotulavam de Detroit house. Seu argumento era que os discos de Chicago ecoavam a disco da Philly International, enquanto em Detroit "não temos nenhum ponto de referência real". Concorde-se ou não com cada parte dessa rivalidade, o que estava em jogo era claro: a autoria de um gênero é uma reivindicação econômica tanto quanto estética.
"Clear", o single do Cybotron de 1983, vendeu 50 mil cópias e foi sampleado por Missy Elliott e por incontáveis outros artistas. Esses números parecem modestos ao lado dos volumes do streaming de hoje. Um gênero cujo DNA atravessa tanto material sampleado merece mais que uma nota de rodapé quando as line-ups de festivais são vendidas com base em "herança".
Reconhecimento de verdade custa dinheiro, não um minuto de silêncio
Aqui passamos do fato à opinião. Homenagens não custam nada: uma tela escurecida, um minuto de silêncio, o anúncio de um relançamento cronometrado para o ciclo de notícias. O reconhecimento real é menos glamouroso. Festivais que atraíram multidões com sons de raízes detroitianas poderiam financiar encomendas, temporadas de shows e projetos de arquivo para os pioneiros que ainda estão vivos, e contratá-los como artistas, não como convidados cerimoniais. Selos poderiam precificar relançamentos de modo que os criadores e seus espólios participem claramente dos ganhos, e manter os catálogos disponíveis além do pico de aniversário.
Acrescentaríamos mais um pedido. O Technomusicworld chama Atkins de fundador da Metroplex, e achamos que instituições que se importam com a história do gênero poderiam apoiar selos independentes como esse, em vez de apenas comprar o catálogo antigo pelo alto.
Trate bem os pioneiros enquanto eles podem sentir
A morte de Atkins encerra o capítulo fundador, e o melhor memorial, a nosso ver, seria tratar bem os pioneiros que restam enquanto eles podem sentir. Se você comanda um festival ou um selo, a próxima line-up, o próximo contrato e o próximo relançamento são o verdadeiro obituário. Se você é ouvinte, comece por "Clear" e depois veja quem lucra quando você aperta o play.
Ainda não há temas: abra o primeiro.
Mais matérias
Turnstile disse não ao Metallica, e foi a decisão de turnê mais inteligente do ano
Recusar uma turnê com o Metallica não é arrogância. Para uma banda que acabou de levar 60 mil pessoas ao National Mall, pegar emprestado o público de uma lenda custa mais do que rende.
Springsteen tem razão: rock e hip hop sempre foram políticos
A pergunta de Springsteen sobre rock e hip hop desmonta o elitismo de gênero e lembra que a música política só vale quando arrisca alguma coisa.
O "adeus" de Bono não é a despedida do U2: a aposta é a química humana
Fãs leem um aviso de aposentadoria numa pausa em entrevista a Zane Lowe, mas o mais ousado é o U2 apostar um álbum novo em humanos imperfeitos, não em máquinas.
A volta lenta do My Chemical Romance é inteligente, mas só se as músicas aparecerem
O plano de Gerard Way de dedicar 2027 ao estúdio e voltar à estrada em 2028 é o oposto de explorar a nostalgia, e isso faz do álbum o verdadeiro teste.



