Rush no Sphere só funciona se a banda recusar o roteiro das residências
Uma temporada de shows em Las Vegas combina com uma banda obcecada por precisão, desde que o Rush fuja do modelo de grandes sucessos em tela gigante e preserve seu espírito peculiar e exigente.
Foto: Tomás Del Coro from Fabulous Las Vegas, Nevada, USA / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
Existe no mundo uma banda mais combinada com uma casa de shows construída como uma obsessão tecnológica do que o Rush? E existe uma banda com mais chances de sair diminuída de uma temporada em Las Vegas, se ela for feita no piloto automático? As duas respostas podem ser sim, e essa tensão é a história toda.
Eis o que sabemos, e é menos do que as manchetes sugerem. A AXS informa que o Rush estaria em negociações para uma temporada no Sphere, com o radialista Eddie Trunk chamando o negócio de "fechado" e falando em até 18 shows. O Rushisaband.com diz que Trunk citou de 16 a 18 shows no ano que vem. Nada disso é anúncio confirmado. Trate como um boato com um mensageiro barulhento e confiante.
O encaixe é real e tem a ver com temperamento
O Rush nunca foi uma banda de improvisar. A proposta da atual turnê Fifty Something diz muito: segundo o rush.com, dois sets por noite, cada show montado a partir de um catálogo de 35 músicas, com uma seleção diferente a cada noite. É uma banda que trata o set list como um problema de engenharia. Um local cuja razão de existir é som e imagem controlados, imersivos e meticulosamente projetados é, no papel, um lar natural para quem passou décadas suando os mesmos detalhes.
Há também um argumento prático, e é o mais forte, a nosso ver. A Fifty Something foi anunciada com sete cidades e, após ingressos esgotados quase de imediato, virou o que a Guitar World descreve como 86 shows pela América do Norte, América do Sul e Europa, terminando em Helsinque em abril de 2027. A demanda claramente supera o que dois músicos veteranos, mais um baterista novo, deveriam querer carregar pelo planeta. Um palco fixo com produção fixa é a resposta humana. Os fãs vão até a banda, e a banda dorme na própria cama. Isso não é se vender; é bom senso.
O perigo é o modelo, não o local
Conhecemos a cartilha das residências: um passeio polido pelos grandes sucessos, um espetáculo com cara de caro, um set list que quase não muda porque não pode. Para alguns artistas, esse é o objetivo. Para o Rush, seria trair o que torna a turnê atual interessante: a variedade. Se de 16 a 18 noites virarem as mesmas 20 músicas com os mesmos visuais, a banda vira uma atração turística premium. Preferiríamos vê-la usar o formato de repetição como a turnê já faz, alternando o repertório para que um fã dedicado possa ir duas vezes e ouvir um show diferente.
O segundo perigo é a tela. Visuais gigantes podem facilmente soterrar três músicos cujo apelo está no que suas mãos fazem. Os discos do Rush pedem que você ouça baixo, guitarra e bateria discutindo entre si. As imagens deveriam servir a isso, não afogar. Nossa esperança, e é só uma esperança, é que o visual beba do mundo da própria banda, de conceitos estranhos, eruditos e levemente nerds, e não de um papel de parede cósmico genérico.
O teste de verdade é o banco da bateria e a alma
Anika Nilles, a baterista alemã que entrou para esta reunião, tem uma tarefa difícil: ocupar um lugar que o próprio Geddy Lee chamou de insubstituível. Uma temporada fixa pode ser gentil com ela. A repetição permite que ela se assente no repertório em vez de ter de se provar numa agenda de turnê apertada. Lee e Lifeson também disseram esperar incluir mais um ou dois músicos, o que, num espaço controlado, poderia ampliar o som sem embaralhá-lo.
Mas o espírito importa mais que o equipamento. Esta reunião foi apresentada, no comunicado da própria banda, como uma homenagem ao catálogo e a Neil Peart. Uma temporada em Vegas que pareça uma volta olímpica de uma marca iria de encontro a isso. Uma que pareça uma declaração final deliberada e finamente construída poderia ser o melhor argumento até agora de que o Sphere é mais que uma novidade.
Nosso veredito
Se o acordo for real, diga sim, mas nos termos do Rush: set lists variáveis, contenção nos visuais, música em primeiro lugar. Se acabar parecendo o molde padrão das residências, pule e veja a banda na estrada enquanto ela ainda está em movimento. Precisão é a religião do Rush, e o Sphere pode ser a sua catedral. Só não pode virar a sua lojinha de souvenires.
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