Trump na sala: por que o acordo da Live Nation com o DOJ tem cara de política
A presença "breve" de Trump na reunião que selou o acordo da Live Nation não prova interferência, mas mostra aos fãs quem teve acesso e quem não teve.
Imagem gerada por IA
Existe um teste simples para qualquer acordo antitruste: um fã reconheceria o processo que o produziu? O mais recente documento da Live Nation na Justiça sugere que, neste caso, a resposta é não.
Em 21 de outubro, a Live Nation e a Ticketmaster apresentaram uma petição alterada na corte federal de Nova York. Como informa o Music Business Worldwide, o texto diz que o presidente Trump "apareceu brevemente" na reunião de 5 de março em que os termos do acordo foram fechados, mas "não participou de nenhuma discussão substantiva sobre o acordo". A versão de junho mencionava a reunião e omitia a presença dele. A alteração também reescreve uma conversa de fevereiro com o CEO Michael Rapino: foi Trump quem ligou, por causa do Kennedy Center, e foi Trump quem perguntou sobre o processo.
"Brevemente" carrega muito peso
Primeiro, sejamos justos. Nada na documentação mostra que Trump ditou os termos, e o PYMNTS observa que a petição não estabelece isso. A Live Nation nega interferência política e diz que alterou o documento "por excesso de cautela" depois de uma decisão de agosto em outro caso, envolvendo a Hewlett Packard Enterprise.
Ainda assim, achamos que o enquadramento é o que revela. Uma empresa que considerasse irrelevante a aparição do presidente não teria motivo para omiti-la, e a redação da ligação de fevereiro passou de vagos "diversos assuntos" para uma ligação presidencial com uma pergunta específica sobre o caso. Nos contatos com a Casa Branca, toda correção que conseguimos ver vai na direção de mais proximidade, não menos. A empresa diz que a primeira versão era "completa e em conformidade". Pode ser. Ainda assim, é um critério estranho quando a versão mais completa é a que parece uma história.
Também há o que a petição não aborda. O Wall Street Journal informou, segundo o Digital Music News, que Trump instruiu um alto funcionário do DOJ a fechar acordo antes do julgamento. A petição alterada não menciona isso. Tratamos essa informação como não comprovada aqui, mas note que a omissão deixa intocada a pergunta mais importante.
O que precisava de explicação era o acordo
O contexto importa mais do que a participação especial. O DOJ fechou acordo cerca de uma semana após o início do julgamento. Ele permite que a Live Nation fique com a Ticketmaster e, em troca, a Live Nation abre mão de acordos de reserva exclusivos em 13 anfiteatros, aceita um teto de 15% nas taxas de serviço da Ticketmaster em seus anfiteatros e reserva US$ 280 milhões para pedidos de indenização dos estados. Depois, os estados que se recusaram a fazer acordo venceram: em 15 de abril, um júri concluiu que a Ticketmaster monopolizou ilegalmente a venda primária de ingressos em grandes casas de show dos EUA e que a Live Nation fez o mesmo em grandes anfiteatros.
Ou seja, o governo federal desistiu de um caso em que um júri depois deu razão aos estados. Esse é o fato incômodo. Não podemos dizer que a Casa Branca causou isso, mas um acordo tão brando, fechado tão tarde, com tanto acesso para os assessores da ré, convida exatamente à suspeita que hoje o acompanha. Vinte e um estados disseram à corte que o acordo "pode ter sido influenciado por pessoas de fora do Departamento de Justiça e por preocupações que não a de restaurar ou ampliar a concorrência". O juiz negou em agosto o pedido deles de investigação, embora tenha deixado a porta aberta para pedidos restritos e específicos.
O que os fãs devem esperar de verdade
Se você espera que isso termine em ingressos mais baratos, recomendamos baixar as expectativas. O teto de taxas cobre apenas anfiteatros, e a cobertura da Northeastern sobre especialistas argumentou em março que o acordo não fará o bastante para reduzir o custo dos ingressos. O acordo também estende por oito anos as regras de conduta supervisionadas pela Justiça a que a Live Nation está sujeita desde a fusão com a Ticketmaster, em 2010; ou seja, o regime atual, o que antecedeu um veredito de monopolização, ganha mais tempo.
A esperança real está em outro lugar: no juiz Arun Subramanian, que precisa decidir se o acordo atende ao interesse público nos termos da Lei Tunney, e nos estados, que pedem a venda da Ticketmaster. A Live Nation, enquanto isso, quer a anulação do veredito ou um novo julgamento. Essas decisões, e não a reunião na Casa Branca, definirão se algo muda.
Nosso veredito
Encare a revelação como um problema de credibilidade, não como prova definitiva. Ela mostra um acordo moldado em salas que os fãs nunca veem, entre pessoas com linha direta com o poder, e uma empresa que só atualizou sua versão depois que a decisão de outra corte tornou o silêncio arriscado. A Coalition for Ticket Fairness tem razão ao dizer que a Justiça e o Congresso devem exigir transparência total.
Nosso conselho: ignore o "breve" e acompanhe o juiz. Até que uma decisão force mudanças estruturais, parta do princípio de que as taxas, as casas de show e as opções de venda de ingressos continuarão como estão. Um acordo que deixa uma só empresa controlando a promoção, as casas e a venda de ingressos não parece reforma. Parece uma negociação muito concorrida.
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