Eurovision Asia precisa deixar a Ásia escrever as regras, não só as músicas
O Eurovision Asia finalmente chega a Bangkok em 14 de novembro, mas um formato europeu, um modelo comercial e um regulamento feito para o pop podem torná-lo uma cópia com iluminação melhor.
Foto: OPK-Photography / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Dá para franquear um sentimento? Essa é a pergunta de fundo do Eurovision Asia, que finalmente sobe ao palco em Bangkok em 14 de novembro, depois de quase duas décadas de tentativas frustradas. A marca é portátil. Já a magia, não temos tanta certeza.
Os fatos são bem simples. Segundo o veículo espanhol ESC Plus, onze países vão competir: Bangladesh, Butão, Camboja, Coreia do Sul, Filipinas, Laos, Malásia, Mongólia, Nepal, Tailândia e Vietnã. A emissora tailandesa Channel 3 será a anfitriã, e a Voxovation comanda o show com licença da EBU. A ideia vem de 2008, passou por uma tentativa australiana engavetada em 2021 e só foi anunciada oficialmente em 31 de março de 2026.
O formato é o verdadeiro autor
O ESC Insight informa que as regras continuam as mesmas da Europa: duração da música, número de pessoas no palco, tudo. O próprio diretor, Martin Green, admitiu que isso "naturalmente empurra o concurso para o território da música pop", acrescentando que o pop não é igual em toda parte.
É uma leitura generosa. Na nossa visão, um limite de duração e um modelo de encenação pensado para a TV não são recipientes neutros. Eles são uma estética. Uma tradição folclórica do Himalaia ou um estilo longo do Sudeste Asiático não cabe simplesmente ali dentro. Acaba editado para caber. O concurso europeu abriu espaço para rock, fusão de folk e atrações de inspiração clássica, como observa o ESC Insight, mas suspeitamos que essa flexibilidade foi conquistada com o tempo, conforme os países aprenderam a esticar as regras. A Ásia recebe o modelo no primeiro dia, com um relógio comercial correndo.
E o relógio importa. O mesmo relatório diz que o Eurovision Asia funciona como uma operação totalmente comercial, enquanto na Europa o evento é bancado por taxas de participação das emissoras públicas e por patrocínio. Parte do dinheiro da versão asiática volta para a EBU. Não achamos que comércio seja pecado. Mas os anunciantes provavelmente gostam de pop legível, exportável e amigável ao inglês, e os incentivos costumam vencer as discussões que as boas intenções começam.
A Coreia do Sul é ao mesmo tempo o atrativo e o perigo
O line-up tem uma estrela óbvia na Coreia do Sul, país cuja indústria pop tem enorme influência global. O ESC Insight lembra que astros do K-pop dominaram as paradas internacionais da IFPI em 2025 e que artistas de K-pop enviaram vídeos de apoio no lançamento. Isso é um presente para a visibilidade.
Também é um risco. Se as inscrições mais brilhantes e polidas definirem o tom, o concurso pode virar vitrine de um modelo de pop que já viaja bem, enquanto as delegações menores fazem papel de coadjuvantes. Butão, Laos ou Nepal não precisam de um palco para ouvir que são "diversos". Precisam de um em que o som deles seja o ponto central, não a guarnição. Green descreveu como algo "óbvio" ("no-brainer") o fato de as emissoras valorizarem o concurso como forma de dar chance a astros pop nacionais. É um bom negócio, e pode achatar justamente a diferença que o concurso anuncia.
Votação e plataformas podem ser a parte realmente nova
É aqui que a Ásia pode inovar de verdade. As seleções nacionais foram transmitidas no canal oficial do Eurovision no YouTube, e os espectadores podiam votar on-line pela plataforma ZOOP mesmo sem morar no país que escolhia sua canção: oito votos gratuitos distribuídos entre pelo menos três músicas, mais até 10 extras pagos. Na prática, um fã em Seul poderia opinar sobre uma escolha em Manila. É uma relação diferente entre público e artista em comparação ao televoto tradicional, e parece feita para o jeito como se consome música hoje.
Ainda assim, votos pagos dentro de um produto comercial merecem escrutínio. Gostaríamos de ver como a pontuação os pondera antes de falar em salto democrático. E há uma ressalva justa: algumas das emissoras participantes atuam em países com laços estreitos com o governo, como aponta o veículo espanhol Eurovision Spain. "United by Music" é mais fácil de dizer do que de garantir nesses palcos.
O que observaremos em 14 de novembro
Julgue a noite por um único teste: alguma coisa no palco parece que não poderia ter saído do modelo europeu? Uma música em língua regional, um instrumento, uma ideia de encenação que o regulamento normalmente suavizaria. Se o vencedor for um single pop impecável em inglês, o concurso terá dado certo como produto e falhado como ideia.
Nosso veredito: não o descarte como imitação, mas também não o coroe ainda como marco cultural. A primeira edição é uma negociação. Se os organizadores ouvirem, a segunda deve afrouxar as regras que a Ásia considera desconfortáveis. Se não, o continente terá pegado um formato emprestado e aberto mão da chance de escrever o seu.
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